Voltar

Dicas do Quique Brown para a quarentena

30/03/2020 16:38

Em tempos de quarentena, segue a dica de um livro e duas séries que, por mais que sejam bem diferentes, possuem muita coisa em comum.

NOFX — Na banheira com hepatite e outras histórias 

Fui contratado duas vezes sem remuneração pela Läjä Records para fazer papel de Diabo em clipes produzidos pela Black Vomit Filmes e, nas duas ocasiões, meu grande amigo e jornalista musical, Ricardo Tibiu, foi comigo para os sets de filmagem. 

Durante a maquiagem do clipe O diabo está sempre ao meu lado, do grupo Merda, Tibiu disse que tinha editado a biografia do NOFX — Na banheira com hepatite e outras histórias — e, em linhas gerais, deixou claro que o livro é impressionante e passa longe de tudo o que a gente pensa que vai ler em um primeiro estalo, uma vez que qualquer um que conhece minimamente o grupo, imagina de cara que serão páginas e mais páginas de diversão e bizarrice fanfarrona de todo tipo, mas não — não tem quase nada disso.

Fiquei tão curioso com os relatos de Tibiu que, assim que cheguei em casa, ainda com uma boa quantidade de gosma vermelha na cara e cola (pra colar chifre) no cabelo — entrei na rede mundial de computadores, comprei o livro no site da Highlight Sounds e, assim que o correio entregou o pacote, tive acesso a uma montanha gigante de tensão, depressão, persistência, situações terríveis e alguma diversão. 

No livro, por muito tempo, o batera é o pivô da história com sua vida navegando em um mundo parecido com a nossa Cracolândia. Pra vocês terem uma ideia do bagulho, a banheira colorida e animada da capa do livro na vida real — é, na verdade, o único reservatório de água de um apartamento de junkies onde as pessoas que frequentavam o local cagavam, mijavam, vomitavam, limpavam o nariz e puxavam água na seringa para injetar heroína — aproveitando a deixa — a hepatite da capa também veio dela. Continuando o spoiler, um outro integrante da banda matou a própria mãe a pedido dela e, teve um outro que quase passou a vida na cadeia por usar dinheiro falso para comprar drogas e oferecer (em forma jabá) para os DJs das rádios californianas. 

O livro também retrata com muita precisão a violentíssima cena punk/hardcore da Califórnia do início dos anos 80 pelo olhar do público, ou seja, deles mesmos e, pra quem toca, ou simplesmente tem interesse por música, a leitura nos dá uma lição de vida sobre como é estar em uma banda, e, principalmente, o quão importantes são as palavras; foco, persistência, planejamento, utopia e visão de negócio — algo que diga-se de passagem, Fat Mike tem (sempre teve) de sobra. 

Trailer Park Boys 

Coisa de dois anos atrás, vi uma postagem do Fernando Rick, chefe máximo da Black Vomit Filmes falando dessa parada, no texto, ele dizia que o bagulho era um mocumentário bem doido — tipo uma mistura de The Office com Hermes & Renato que se passa em uma favela canadense. Na ocasião, dei print no post e corri atrás da dica, pois, não tem como passar reto em algo que Fernando Rick diz, afinal de contas, ele é simplesmente o cara que dirigiu os documentários do Ratos de Porão e do Gangrena Gasosa, o filme Ivan, o programa de entrevistas do Crackinho e mais uma porrada de coisa sinistra. 

Voltando ao Trailer Park Boys, a série se passa em um bairro de trailers no Canadá e todas as temporadas começam com os personagens Rick e Julian saindo da cadeia e terminam com eles voltando pra prisão, na tela, ambos são delinquentes desastrados que praticam diariamente todo tipo de delito; assaltos, tráfico, estelionato e por aí vai… Pra melhorar ainda mais a fita, o melhor amigo dos caras, Bubbles, tem síndrome de down e é a pessoa mais sensata da série — que conta também — com dois guardas locais que são os algozes dos delinquentes e mais uma porrada de gente completamente maluca. 

Numa primeira vista, tudo parece uma grande doideira non sense, mas como disse meu amigo Zé Pi (que também é fã), a série trata com muita profundidade o mundo das relações humanas, e, principalmente, da amizade — pra fechar essa estrofe, a meta de vida dos amigos Rick e Julian é cometer um crime bem sucedido e se aposentar, mas... 

Pra quem gosta de cinema, tudo é filmado de uma vez com uma câmera só e os roteiros são surreais. 

Se você é gosta de Rush, ou não, assista primeiro o episódio número 5 da 3ª temporada, Closer to the heart. Feito isso, volte pro começo e assista o resto. 

Considerando que o bagulho aqui é um verdadeiro besteirol, considerando que são 12 temporadas com aproximadamente 10 episódios cada, considerando que a quarentena tá só começando, e por fim, que neste momento tenso das nossas vidas a “diversão é solução sim” — Trailer Park Boys é um prato cheio. 

TOP BOY

Vi recentemente uma matéria em algum lugar sobre uma série que o rapper Drake tinha financiado a última temporada chamada TOP BOY — fiquei curioso e fui conferir esse bagulho doido que se passa em Londres e conta a história dos traficantes, Dushane e Sully — dois caras obstinados a chegar no TOPO, mas que nunca chegam. 

Enquanto o livro do NOFX consegue ser absurdo, sombrio e cômico, e, Trailer Park Boys absurdo e cômico, TOP BOY só consegue ser só sombrio, tudo nele é escuro e nublado em um mundo que só faz frio. 

A trilha sonora é brutal e me impressionou duas vezes; a primeira enquanto eu assistia e me via hipnotizado por todo e qualquer barulho que vinha da tela e, a segunda, quando vi no letreiro que quem assina o som é ninguém menos que Brian Eno, nome máximo da música ambiente, membro da primeira formação do Roxy Music e produtor de artistas como; DEVO, David Bowie, U2 e muitos outros. 

Vale destacar que a série possui três temporadas, duas produzidas pela Channel 4 que se chama TOP BOY SUMMERHOUSE e outra que se chama, apenas, TOP BOY. Vacilei e assisti primeiro a terceira, mas não morri por causa disso.

Por fim;

O livro e as duas séries possuem muita coisa em comum, o bagulho das ruas, das amizades, da loucura etc., mas o lance mais forte que existe entre eles é a busca incansável dos personagens centrais por um futuro melhor, meta muito difícil de alcançar quando você nasce e cresce em um ambiente fodido e sem perspectivas como é o caso de todo mundo no livro e nas séries. 

De todos, os unicos que acabaram se dando bem na vida foram os caras do NOFX que se tornaram um dos grupos independentes mais bem sucedidos da história da música, já que, chegar onde esses caras chegaram sem nunca ter assinado com uma grande gravadora, nem ter aparecido na MTV, realmente, é pra poucos, ou melhor, é só pra eles mesmos — enquanto isso, Dushane e Sally continuam na correria pra chegar ao topo e os doidos do Trailer Park Boys na tão esperada aposentadoria… 

O livro está disponível no site da Highlight Sounds e as séries estão na Netflix. Bóra aproveitar que a quarentena tá só começando!!! 

Confira o videoclipe do Conjunto de Música Jovem MERDA - O Diabo Está Sempre Ao Meu Lado e acesse a loja da Laja Records 

 


← Voltar