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REFAZENDO TUDO

27/02/2020 17:44

REFAZENDO TUDO - REFAZENDA 

Nos anos 90, aquilo que viria a ser um grande shopping a céu aberto aqui em Bragança, se tornou um antro gigante da loucura, um quarteirão inteiro de bares e casas noturnas popularmente conhecido como Zero Dois, que era, na verdade, o nome de um dos vários estabelecimentos do quarteirão, algo como chamar óculos escuro de Ray Ban.

Meu ponto preferido do conglomerado, se chamava Rock Pit e a banda que se apresentava por lá quase todo final de semana era o Macacos Sem Pelo, que tinha em sua formação os amigos; Ju Polimeno, Meno Del Picchia, Bibo, Emaldo e Rodrigueira. O repertório dos caras possuía músicas próprias que viraram verdadeiros hits locais e releituras incríveis executadas com muita personalidade.

Uma das canções que pingava quase sempre no final dos shows, vinha com uma linha de baixo bem simples e bem doida que ia se repetindo do começo ao fim e transformava o personagem Jeca Tatu em Jeca Total - um cara do presente, passado, futuro que curte televisão, nos representa no congresso, e também é, Jorge Salomão, irmão de Wally. 

Um dia cheguei perto do palco e perguntei pro Juliano se aquela faixa havia sido composta pela banda e ele disse que não, falou que era de um disco antigo do Gilberto Gil chamado Refazenda.

Saí em busca do álbum e comprei um LP no Bazar do Salomão que tenho até hoje. Na época, comi, literalmente, a bolacha com farinha e escutei direto por muito tempo, da primeira à última música, não falha nenhuma. Pai e Mãe, é uma das melhores coisas que a música mundial já produziu. Essa é pra tocar no rádio é uma loucura sem tamanho, O Rouxinol é um rock de gente grande só com voz e violão, e, pra falar de um último som aqui antes de mudar de assunto, Gil gravou uma versão de Lamento Sertanejo do Dominguinhos que faz qualquer um sair do chão, sabe aquelas canções que falam sobre o cara que veio pra cidade e não consegue se inserir no mundo urbano? Então, de todas as letras que já foram feitas sobre esse tema, essa é a melhor. 

Refazenda, como o próprio nome já diz, é uma homenagem ao mundo sertanejo, é Gilberto Gil voltando pro sertão da Bahia e narrando tudo aquilo que viu na sua infância, juventude e, como não poderia deixar de ser, é um álbum extremamente tropicalista.

Nos anos 70, principalmente no eixo Rio x São Paulo, a música com influência do campo passou a ser dividida em dois blocos, o da música caipira, que era basicamente tocada com viola e violão e tratava majoritariamente de temas rurais, e, o da música sertaneja, que fazia uso de metais, instrumentos elétricos, tinha forte influência de ritmos latinos como a guarânia, o bolero e o maxixe e falava principalmente de amor. Nessa bola dividida entre sertanejo e caipira, Gil não titubeou e, naturalmente, jogou com os sertanejos, que eram de modo geral, os tropicalistas da música rural. 

Enquanto quase todas as letras de Refazenda tratam do campo, o instrumental do disco contém uma influência nítida da música estrangeira, algo carregado de ojeriza e preconceito por parte da intelectualidade brasileira da época, que não aceitava estrangeirismos na música popular e chegou até a organizar em 1.967, uma passeata contra a guitarra elétrica, que Gil, meio que contra vontade, acabou participando, ao lado de inúmeros outros artistas brasileiros que se arrependeram profundamente de ter participado de tal ato e “eletrificaram” seus sons posteriormente. Pra fechar essa estrofe, é sempre bom lembrar que, naquele tempo, uma imensa massa populacional havia deixado o campo para viver na cidade e esse grupo não se sentia, nem paulistano como os paulistanos, nem caipira como os parentes e amigos que ficaram no interior e, as músicas que tinham, ao mesmo tempo, influência do mato e do asfalto, era perfeita pra eles. 

Por fim, a capa do disco é maravilhosa e retrata o lindo e particular mundo de Gilberto Gil, que se encontra ao centro com um roupão azul comendo alimentos macrobióticos com hashi em uma mão, uma cumbuca de sopa na outra, cercado por uma rede gigante que se conecta com inúmeros retratos. 

Mais de 30 anos após a gravação do álbum, a preferência por alimentos não processados ainda está no dia a dia do nosso eterno Ministro da Cultura que (certamente) ainda carrega uma bolsa a tiracolo com algumas castanhas e outros itens pessoais dentro.

Gilberto Gil - Refazenda (1975) 
https://open.spotify.com/album/3lcMJgSMQvhX85yVjvQpRa?si=9HNwysJMThuH6BIgdKNsYA
https://www.youtube.com/watch?v=ivG5CQwNXC8&t=2001s

 


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